A mãe de Daniel e a mãe de Pedro

Ruth de Aquino
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de
ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
"Por que um sargento gay é algemado e um PM assassino sai livre da delegacia, dando o.k. do carro para a platéia como se fosse uma celebridade?" A pergunta é de Daniela Duque, mãe do jovem Daniel, de 18 anos, assassinado em frente a uma boate no Rio de Janeiro. Ela soluça ao telefone: "Acordo de madrugada e percebo que não é um pesadelo". Seu filho foi morto por um PM que há oito anos faz a segurança da promotora Márcia Velasco e de sua família. Está provado que o tiro na axila de Daniel foi à queima-roupa.

Daniel Duque era remador do Botafogo, fazia vestibular para Direito, era querido pela mãe e pelo padrasto, bonito, popular. Nesse minúsculo mundo da juventude dourada do Rio, quase todos se cruzam e se conhecem, da praia ou de festas. Na sexta-feira 27 de junho, Daniel foi à Baronetti, point conhecido em Ipanema, comemorar o aniversário de um amigo. Nada poderia ser mais rotineiro. Teria começado na boate uma discussão. A briga continuou fora, eram quase 6 horas da manhã do sábado.

Deu praia no fim de semana. Uma praia gloriosa de inverno, com brisa, sol forte, maratona no calçadão. Daniel estaria surfando, remando ou jogando altinho na areia. Altinho é aquele jogo em que um círculo de rapazes e moças tenta manter a bola de futebol no alto, com habilidade, junto ao mar. Não é jogo para derrotar ninguém. Não é perde-ganha. Mas Daniel perdeu. Foi morto covardemente. Não haverá mais praia, nem sonhos, nem amores, nem filhos, nem dissabores para Daniel. Porque seu futuro foi cortado por uma bala de pistola calibre 380, disparada pelo PM Marcos Parreira. Ele fugiu da cena do crime com seu "patrão", o rapaz Pedro Velasco, cantando pneu do BMW preto. Não pensaram em socorrer Daniel. Só em escapar do flagrante.

Disputas entre rapazes são antigas e nunca foram inocentes. Na Baronetti, são freqüentes. No Rio, eram famosas as brigas entre turmas de rua nos anos 60 e início dos 70. As turmas da Miguel, da Barão, da República, todas ruas de Copacabana. Uns sempre acabavam mais quebrados. É de lei. Lutas são apartadas. Há a turma do deixa-disso. Quem não se garantia chamava um amigo mais forte. Hoje, filhos de promotoras chamam seguranças armados. Pagos com nosso dinheiro para varar a noite em boates.
Por que um segurança de promotora vara a noite
em boates e transforma briga de jovens em crime?

Um PM profissional e lúcido tiraria de cena seu protegido e não sacaria a arma no meio de tantos jovens. E, se fosse irresponsável a ponto de disparar, daria apenas tiros para o alto. Mas feriu mortalmente um rapaz. Marcos Parreira alegou "legítima defesa". A alegação é um escárnio. Ninguém ameaçou o policial ou o filho da promotora com faca, canivete ou revólver. O tiro contra Daniel Duque foi um legítimo ataque.

"O PM fez o disparo assumindo que um resultado mais grave poderia ocorrer. Não foi legítima defesa porque ele não se apresentou espontaneamente", disse o delegado Rafael Menezes, da 14ª DP. Esse PM, Marcos Parreira, não é apenas despreparado. Ele é uma ameaça à segurança pública. Está preso, mas seu advogado acha a detenção uma arbitrariedade.

A mãe de Pedro, promotora Márcia Velasco, tem todo o direito à segurança do Ministério Público.

Ela trabalhou no caso do traficante Fernandinho Beira-Mar e sofre ameaças de morte. Em carta aberta, a promotora disse que seu filho "é um prisioneiro, pela nossa condição de marcados para morrer".

Prezada Márcia, um rapaz prisioneiro do medo não fica rodando de boate em boate no Rio madrugada adentro e se envolvendo em brigas.Seu filho Pedro se sente poderoso com um guarda-costas armado, a bordo de um BMW. O medo é dos outros.

No Rio, como disse Daniela Duque, as mães "entregam os filhos a Deus" quando eles saem à noite. Pagamos impostos, criamos nossos filhos, eles vão a uma festa e podem não voltar. E fica por isso mesmo. Daniela exige justiça. Mas a gente sabe que punir não é o forte deste país (veja abaixo os vídeos).

Ao governador Sérgio Cabral

1 - Onde estão os traficantes da Mineira que trucidaram no dia 14 de junho os três jovens negros e pobres da Providência, entregues por um tenente do Exército?

2 - Onde estão os milicianos que torturaram no dia 14 de maio a equipe do jornal O Dia na Favela do Batan?

3 - Onde estão os retratos falados dos assassinos sem farda? Por que estão livres e impunes? Quem são eles?

Lohren Beauty

Nenhum comentário:

Postar um comentário