Droga para acne pode afetar crescimento

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Droga para acne pode afetar crescimento
Remédio só tem aprovação para adultos, mas tem sido usado em crianças apesar da falta de estudos que atestem a segurança

Isotretinoína não deve ser usada antes dos 12 anos, segundo fabricante; Anvisa diz que uso infantil é "por conta e risco do médico"
CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Crianças e até recém-nascidos têm sido medicados com isotretinoína oral (Roacutan), uma substância de uso adulto indicada para casos de acne grave e que, entre outros efeitos, pode interromper o processo de crescimento ósseo na infância e adolescência.
O assunto é polêmico, divide opiniões médicas e foi um dos temas discutidos em um simpósio de dermatologia ocorrido na última sexta em São Paulo.
Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), não há estudos que atestem a segurança do uso infantojuvenil da droga. A utilização nesses casos não tem aprovação (off-label), "é por conta e risco do médico".
A Folha entrevistou ao menos três pediatras que dizem já ter utilizado o remédio em bebês e crianças pequenas que tinham acne persistente. "Já mediquei até recém-nascido, tamanha a certeza que tenho da segurança e da eficácia", diz uma pediatria que pediu para não ser identificada.
Em nota, o laboratório Roche, fabricante do Roacutan, informou que o medicamento é contraindicado a menores de 12 anos, conforme já consta na bula do remédio.
O dermatologista Omar Lupi, presidente da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), afirma que a isotretinoína não é recomendada antes dos 15 anos porque há riscos de a droga diminuir o ritmo de crescimento da criança. Mas ressalta que não há veto formal à sua utilização antes dessa idade.
"É preciso discutir caso a caso. Se uma menina menstruar aos 12 anos, sabemos que ela vai crescer por mais dois anos. Então, o uso da droga não comprometeria o crescimento [após os 14 anos]. Já com os meninos é diferente. É necessário pesar os riscos e benefícios porque a responsabilidade em indicações off-label é totalmente do médico."
O dermatologista Emerson de Andrade Lima, que coordena o ambulatório de cosmiatria da Santa Casa do Recife (PE), diz já ter medicado com isotretinoína ao menos 20 crianças de 12 anos, sempre com o comprometimento dos pais de seguirem as instruções de segurança de uso da droga.
No caso das meninas, por exemplo, ele conta que só inicia a terapia diante de um teste de gravidez negativo. "Já tive o caso de uma menina de 12 anos em que o pai dizia que o exame era desnecessário porque a filha era virgem. Insisti, e o resultado deu positivo. A menina tinha engravidado do menino que namorava havia um mês."
A isotretinoína tem efeito teratogênico, ou seja, se uma mulher engravidar durante o tratamento, corre o risco de abortar ou de gerar um bebê com má-formação. Por isso, é recomendado que, durante o tratamento, a mulher utilize dois métodos contraceptivos (DIU e pílula, por exemplo).
Lima afirma que, no caso das crianças, além dos exames já pedidos aos adultos (medição de glóbulos vermelhos e brancos, colesterol, triglicérides e funções hepáticas), ele também pede um raio-X para saber se a droga não está interferindo no crescimento ósseo.
"Mas, às vezes, é uma questão de escolha. Correr o risco de crescer um pouco menos ou ficar com o rosto cheio de cicatrizes de acne. Sou totalmente favorável ao uso precoce [da isotretinoína] porque o impacto emocional de um rosto cheio de acne é devastador."
O médico Humberto Ponzio, professor de dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que, em geral, a criança não tem acne tão grave que justifique o uso da isotretinoína. "Mas, quando há uma acne muito violenta, tem que se pesar os riscos e os benefícios, e pode ser usada, sim."
Para Ponzio, o risco em relação ao crescimento ósseo surge quando o remédio é usado em doses maiores e por tempo mais prolongado. "Por períodos curtos, apenas o tempo de melhora dos sintomas, não há perigo", afirma.
A pediatra Ana Maria de Cerqueira, do departamento de dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, ressalta que a utilização precoce do remédio pode levar a uma reincidência da acne em 60% dos casos. "Como as glândulas responsáveis pelo surgimento da acne ainda não estão formadas, a doença pode voltar."


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